Economia

América do Sul terá seu trem mais rápido da história

Projeto bilionário com capital chinês vai conectar duas capitais em duas horas e criar 20 mil empregos
América do Sul terá seu trem mais rápido
Foto: Reprodução

O trem Lima-Ica será o mais rápido da América do Sul, com investimento de 6,5 bilhões de dólares, tecnologia chinesa, velocidade de 200 km/h e capacidade para 45 mil passageiros por dia, conectando a capital peruana a Ica em duas horas e meia com 15 estações ao longo de 323 quilômetros.

A América do Sul está prestes a ganhar o trem mais rápido de toda a sua história. O projeto ferroviário Lima-Ica, no Peru, prevê um investimento de 6,5 bilhões de dólares para construir uma linha de alta velocidade com 323 quilômetros de extensão que vai conectar a capital peruana a uma das regiões turísticas mais importantes do país.

O trem vai atingir velocidades de até 200 quilômetros por hora e reduzir uma viagem que hoje leva quatro horas e meia de carro para aproximadamente duas horas e meia sobre trilhos.

O trem Lima-Ica será o mais rápido da América do Sul: 200 km/h, 6,5 bilhões de dólares, 20 mil empregos e 12 milhões de beneficiados no Peru.

O projeto conta com apoio de capital chinês e deve levar entre seis e sete anos para ser concluído. David Miranda, Diretor de Gestão de Infraestrutura do Ministério dos Transportes e Comunicações do Peru, indicou que o dossiê técnico será finalizado em 2027 e a construção concluída em 2032

Embora a China seja vista como o principal investidor, propostas técnicas não vinculativas foram recebidas da Alemanha, Canadá, Coreia do Sul, Espanha, França, Índia, Japão e Reino Unido. O trem mais rápido da América do Sul terá competição entre potências globais na disputa pelo contrato.

O que o trem Lima-Ica vai entregar em números e infraestrutura

A escala do projeto impressiona. O trem terá 15 estações distribuídas ao longo da costa central peruana, conectando comunidades desde Villa El Salvador e Lurín até Cañete, Pisco e Paracas.

Para superar os desafios geográficos da região, serão construídos 47 quilômetros de viadutos e 32 quilômetros de túneis que vão garantir a operacionalidade da linha em terrenos onde a topografia exigia soluções de engenharia complexas.

A ferrovia terá capacidade para transportar aproximadamente 45 mil passageiros por dia, aliviando o congestionamento na Rodovia Pan-Americana Sul, que hoje concentra todo o tráfego entre Lima e Ica.

O trem também oferecerá acesso direto ao Aeroporto de Pisco, criando uma conexão multimodal que combina transporte ferroviário e aéreo em uma única rota. Para um país que nunca teve um trem de alta velocidade, o projeto representa um salto geracional em infraestrutura de transporte.

Os 20 mil empregos e o impacto econômico do trem na região

A construção do trem vai gerar quase 20 mil empregos diretos ao longo dos anos de obra. O Ministério dos Transportes e Comunicações do Peru informou que o projeto beneficiará aproximadamente 12 milhões de pessoas, sendo seis milhões diretamente, devido à proximidade das estações, e outros seis milhões indiretamente, pelo impacto econômico gerado nas comunidades ao redor da linha.

É um número que transforma o trem de um projeto de infraestrutura em uma política de desenvolvimento regional.

O trem também deve atrair investimentos adicionais nos setores de turismo e comércio. Ica é conhecida internacionalmente por seus desertos, as Ilhas Ballestas, o oásis de Huacachina, a Reserva Nacional de Paracas e suas vinícolas.

Com uma conexão ferroviária rápida e confiável à capital, o fluxo de turistas para a região tende a crescer significativamente. O acesso a áreas rurais ao longo do percurso também deve melhorar, beneficiando comunidades que hoje dependem de estradas precárias para se conectar aos centros urbanos.

Por que a China lidera o investimento no trem mais rápido da América do Sul

O envolvimento chinês no projeto não é acidental. A China é hoje o maior construtor de ferrovias de alta velocidade do mundo, com mais de 45 mil quilômetros de linhas em operação no próprio território.

A expertise técnica e a capacidade de financiamento fazem das empresas chinesas candidatas naturais para projetos ferroviários em países que não possuem tradição nessa área. O Peru, que não tem nenhuma linha de trem de alta velocidade em operação, precisa importar tanto a tecnologia quanto o capital.

Embora a China seja favorita, a competição internacional pelo contrato do trem está aberta. Oito países apresentaram propostas técnicas não vinculativas, incluindo potências ferroviárias como Japão, França, Espanha e Alemanha. Cada um desses países tem tecnologia própria de alta velocidade e experiência em exportar sistemas ferroviários completos.

A decisão final dependerá de uma combinação entre custo, condições de financiamento, prazos de execução e transferência de tecnologia. O trem peruano pode acabar sendo construído por qualquer uma dessas potências.

Uma das características mais relevantes do projeto é que o trem será totalmente movido a eletricidade. Em um momento em que a descarbonização do transporte é prioridade global, o Peru apostou em um sistema ferroviário que não depende de combustíveis fósseis para operar.

O trem elétrico reduzirá as emissões de carbono associadas ao deslocamento entre Lima e Ica, que hoje acontece majoritariamente por veículos a combustão na Rodovia Pan-Americana.

O projeto inclui ainda um sistema de segurança avançado com tecnologia de monitoramento em tempo real, o que garantirá não apenas a eficiência operacional, mas também a segurança dos 45 mil passageiros diários previstos.

Estão previstas iniciativas para promover o uso de energia renovável na operação do trem, o que reforça o compromisso ambiental do projeto. Para a América do Sul, que historicamente priorizou rodovias em detrimento de ferrovias, o trem Lima-Ica pode marcar o início de uma mudança de paradigma.

O que o trem mais rápido da América do Sul significa para o continente

Se o projeto for concluído dentro do prazo e do orçamento, o Peru terá demonstrado que a América do Sul é capaz de construir infraestrutura ferroviária de classe mundial.

O trem Lima-Ica pode inspirar projetos semelhantes em outros países do continente, onde propostas de trens de alta velocidade existem há décadas no papel, mas nunca saíram da fase de estudo. Brasil, Argentina e Colômbia já discutiram projetos ferroviários de alta velocidade sem que nenhum tenha avançado para a construção.

Por: Bruno Teles

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