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Crise de saúde na Faixa de Gaza vai durar gerações

Alerta é de Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
Crise de saúde na Faixa de Gaza
Foto: FABRICE COFFRINI/POOL VIA REUTERS/DIREITOS RESERVADOS

A Faixa Gaza está a passar por uma “catástrofe sanitária e humanitária” que durará vários
anos, alertou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da
Saúde (OMS), que destaca ser necessário um aumento significativo de ajuda para atender
as necessidades complexas da população daquele território palestino.

Em entrevista ao programa Today da BBC, Tedros Ghebreyesus realçou que a população da Faixa
de Gaza “enfrenta fome, ferimentos graves, um sistema de saúde em colapso e surtos de doenças
agravados pela destruição das infraestruturas de água e saneamento”. “Além disso, [há] acesso
restrito à ajuda humanitária. Esta é uma combinação muito fatal, o que torna [a situação]
catastrófica e indescritível”, acrescentou.

Para o diretor-geral da OMS, “se se combinar a fome com um problema de saúde mental que
vemos ser generalizado, a situação torna-se uma crise para as gerações futuras”.

Na terça-feira (21), o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas informou que caminhões
com mais de 6.700 toneladas de alimentos tinham entrado em Gaza desde 10 de outubro, mas
este número ainda estava consideravelmente abaixo da meta de duas mil toneladas por dia.

Seiscentos caminhões de ajuda humanitária precisam chegar a Gaza por dia, mas a média está
entre 200 e 300, disse o responsável da OMS, ao pedir às autoridades israelitas que
“desvinculem” a ajuda humanitária do conflito em geral.

Tedros defende que “a ajuda não deve ser transformada numa arma” e apelou a Israel para que
não imponha condições à entrega de apoio humanitário.

“Deve haver acesso total, não deve haver qualquer condição,
especialmente depois de todos os reféns vivos terem sido libertados e
uma boa parte dos restos mortais ter sido transferida. Não esperava que
houvesse restrições adicionais”, afirmou.

O Hamas comprometeu-se a devolver os corpos, mas até o momento apenas transferiu 15 dos 28,
afirmando não ter conseguido recuperar os restantes.

Vinte reféns israelitas vivos foram libertados pelo Hamas na semana passada em troca de quase
dois mil prisioneiros e detidos palestinianos nas prisões israelenses.

Para a OMS, “todas as travessias disponíveis” são necessárias para levar ajuda suficiente a Gaza
e pediu a Israel que permita que os grupos humanitários regressem ao território. “Não é possível
ter uma resposta alargada sem aqueles que podem ajudar no terreno”, sublinhou.

Caminhão leva ajuda humanitária a palestinos em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza 21/10/2025 REUTERS/Stringer –
Divulgação via Reuters

Sobre o fato dos materiais destinados à recuperação do sistema de saúde de Gaza terem sido
confiscados na fronteira pelas autoridades israelenses que consideram que poderiam ter uso
militar, Tedros Ghebreyesus frisou que se “se vai construir um hospital de campanha, precisa da
lona e dos pilares [para tendas]”.

“Portanto, se os pilares forem removidos, com a desculpa de que
poderiam ter uma dupla utilização, não será possível ter uma tenda”,
completou.

A ONU estimou anteriormente que custaria mais de 60 mil milhões de euros para reconstruir Gaza.
Tedros frisou que cerca de dez por cento deste valor teria de ser gasto no seu sistema de saúde
gravemente danificado.

“Paz é o melhor remédio”

A entrevista ocorre em um momento que os EUA tentam reforçar o cessar-fogo que ajudaram a
intermediar após um surto de violência no fim de semana.

O acordo foi descrito pela Casa Branca como a primeira fase de um plano de paz de 20 pontos
que inclui um aumento da quantidade de ajuda que entra em Gaza e de mantimentos distribuídos
“sem interferência” de ambos os lados

Na entrevista à BBC, Tedros Ghebreyesus realçou que acolheu favoravelmente o acordo de
cessar-fogo, mas afirmou que o aumento da ajuda humanitária subsequente foi inferior ao
esperado. Israel permitiu que mais material médico e outro tipo de ajuda entrassem em Gaza
desde que o cessar-fogo com o Hamas entrou em vigor no dia 10 de outubro, mas o diretor-geral
da OMS considera que os níveis estão abaixo do necessário para reconstruir o sistema de saúde
de Gaza.

“Há muito tempo que dizemos que a paz é o melhor remédio”, recordou, para acrescentar
que “o cessar-fogo que temos é muito frágil e algumas pessoas morreram mesmo depois
do cessar-fogo, porque foi quebrado algumas vezes”, afirmou Tedros.

Para o diretor-geral da OMS, “o que é muito triste é que muitas pessoas estavam a celebrando
nas ruas porque estavam muito felizes com o acordo de paz. Imaginem, [algumas] dessas
mesmas pessoas estão mortas depois de lhes terem dito que a guerra tinha acabado”.

*É proibida a reprodução deste conteúdo

Fonte: Agência Brasil

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